Queda nos juros e alta liquidez impulsionam ofertas de ações

O número de empresas na fila para abrir capital na Bolsa de Valores brasileira neste ano deu um salto. Segundo dados da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), os IPOs (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) em análise pelo órgão saíram de quatro em dezembro de 2019 para 48 até a última sexta-feira (11).

Caso todas essas empresas abram capital até dezembro, 2020 será o segundo ano com o maior número de IPOs da história –o primeiro é 2007, quando aconteceram 64 IPOs, que somaram R$ 55,6 bilhões.

No momento, este ano já ocupa a terceira posição, com 12 estreias na Bolsa, somando R$ 8,8 bilhões. O maior IPO do ano até agora foi o da Petz, que entrou na B3 na sexta e levantou R$ 3,03 bilhões. Ao final do pregão, os papéis da companhia fecharam em alta de 21,3%, cotados a R$ 16,75 .

O aumento de aberturas é reflexo das contínuas quedas na taxa básica de juros –atualmente na mínima histórica de 2% ao ano– que impulsionaram a migração de investidores da renda fixa para a renda variável, em busca de rentabilidades maiores.

A redução na Selic, porém, não é inteiramente repassada por bancos na concessão de crédito, o que pode tornar o IPO uma maneira mais barata das empresas levantarem capital em um momento de crise, especialmente com o mercado em alta.

Segundo o presidente do Banco Plural e da Genial Investimentos, Rodolfo Riechert, além do comportamento do investidor, que passou a aceitar mais risco para ter mais retorno, também houve uma mudança de perfil, com um aumento no número de pessoas entre 24 e 28 anos na Bolsa de Valores.

Dados da B3 apontam que o número de investidores pessoas físicas na Bolsa chegou a 2,9 milhões em agosto deste ano, somando R$ 383 bilhões, um aumento de 73% em relação a 2019, quando estava em 1,68 milhão.

Além da procura do pequeno investidor brasileiro por ações, a Bolsa foi beneficiada por uma injeção massiva de liquidez pelos principais bancos centrais do mundo, que compraram um volume recorde de títulos no mercado, colocando dinheiro na mão dos bancos, fundos de investimentos e gestoras de patrimônio para reduzir os efeitos econômicos do coronavírus.

Com juro próximo de zero nas principais economias do mundo, ações receberam boa parte desses recursos.

"Os números operados na Bolsa aumentaram substancialmente até na pandemia, com os investidores locais passando a ter maior participação. Isso aparece como oportunidade de entrada para a Bolsa, não apenas para as empresas gigantes, mas também para as companhias menores, que veem suas concorrentes ingressando no mercado e também querem fazer parte desse movimento", afirmou Riechert.

Só nas últimas quatro semanas, por exemplo, a CVM registrou 24 novos pedidos de IPO de companhias de diversos setores. Entre os principais destaques estão as ações de empresas do setor de construção, que respondem por 40% dos pedidos em análise na CVM até agora.

Só a incorporadora e construtora Cyrela vai levar três de suas subsidiárias à Bolsa: Cury, Lavvi e Plano & Plano. No acumulado do ano, Cyrela e sua concorrente MRV se desvalorizam 20% cada uma na Bolsa.

Riechert aponta que o juro baixo impulsionou o setor, barateando o custo do financiamento imobiliário. "Com o home office, também há busca por uma casa melhor ou maior e morar mais longe da cidade, mas já tem muita empresa brasileira listada nesse setor. Ter 18 ofertas é totalmente fora de propósito. A Bolsa agora vira Bolsa de construtora de bairro".

Outros setores em evidência são varejo, que lidera os ganhos do Ibovespa neste ano –Magazine Luiza sobe 84%, Via Varejo, 61% e B2W, 57%– e óleo e gás; as ações da Petrobras têm queda de cerca de 27% no ano.

Apesar de atraírem um grande número de investidores pessoa física, as ofertas requerem uma análise mais cuidadosa. Além das características de maior risco dos investimentos de renda variável, como a oscilação frequente do valor da ação na Bolsa e maior sensibilidade dos preços aos acontecimentos macroeconômicos e políticos domésticos e internacionais, IPOs ainda têm riscos adicionais.

Segundo o analista da Suno, Rodrigo Weinberg, é preciso que o investidor se atente aos detalhes da oferta para entender se a alocação de recursos vale ou não a pena.
"É melhor investir em ações já listadas, que já possuem um histórico de entrega de resultados e de pagamento de dividendos, por exemplo. Além disso, ofertas secundárias [quando recursos vão para acionistas vendedores] também podem ser mais arriscadas. É preciso estudar e entender cada empresa. Às vezes, ela pode até ter um plano muito agressivo de crescimento, mas colocar isso em prática é um desafio tremendo", afirmou.

Apesar dos níveis de compliance exigidos pela B3 para os novos ingressantes, os investidores podem ter dificuldades de entender ou acessar o histórico de resultados da companhia para ver se são consistentes. Além disso, os dados ainda podem ser escassos para uma análise mais aprofundada sobre o potencial desempenho da empresa e, consequentemente, do seu papel.

"Um IPO é mais arriscado do que comprar uma ação que já está no mercado porque é mais complicado para o pequeno investidor avaliar", afirmou a professora do Insper, Andrea Minardi. Segundo ela, há empresas que fazem uma maquiagem dos resultados, dentro das normas contábeis, que dificultam a leitura.

Para Jorge Junqueira, sócio da Gauss Capital, para mitigar esse tipo de risco, o investidor deve alocar recursos em empresas ou setores dos quais entende. "Conhecer a companhia e entender como ela ganha dinheiro é um dos primeiros passos", afirmou.

Ele ainda enumera dicas para os investidores de primeira viagem. "A primeira coisa é ler o prospecto e entender como a companhia tem se desempenhado e porque ela vem a mercado. Também é preciso diferenciar o novo normal do que é passageiro. Às vezes, você compra com lucro hoje e amanhã o cenário já mudou", disse em referência a setores que se beneficiaram na pandemia, como ecommerce e varejo alimentar.

O prospecto é um documento feito pelas companhias, no qual detalham as características do seu IPO, se é primário –recursos vão para o caixa da empresa– ou secundário, por exemplo, e de que forma a empresa irá utilizar os recursos obtidos com a oferta.

Outros aspectos, como a presença de um fundo private equity como um dos investidores da empresa antes da abertura de capital, por exemplo, pode ser um indicativo de boa qualidade, afirma Minardi, do Insper.

"É um selo de que a empresa está mais bem preparada, bem como a existência prévia de um conselho", diz a professora.

A temporada agitada de IPOs também implica em um outro movimento no mercado financeiro: a procura cada vez mais ampla por profissionais no setor. Analistas consultados pela reportagem já apontam um maior volume de trabalho e até mesmo a contratação de novos profissionais.

Segundo Joaquim Patto, diretor da consultoria Mercer Brasil, a companhia registrou uma demanda recorde por programas de remuneração de longo prazo para altos cargos executivos. Na apresentação do IPO a potenciais investidores institucionais, a companhia deve indicar como são suas políticas de remuneração.

"Um dos fatores que mais influencia o valor e o sucesso de uma empresa é a qualidade dos executivos que ela consegue atrair e manter. Para isso, é necessário que as recompensas estejam alinhadas com as necessidades do negócio, dos acionistas e dos próprios executivos", disse.

Segundo Patto, há programas pré-IPO, que premiam os profissionais que estavam na empresa há mais tempo e os envolvidos no processo da abertura de capital, e planos pós-IPO para a retenção dos executivos, normalmente vinculando a recompensa ao valor das ações.

Em 2020, já foram concluídos 12 IPOs

Petz, varejo
Volume da oferta: R$ 3,03 bi

Lojas Quero-Quero, varejo
Volume da oferta: R$ 2,23 bi

Grupo Soma, moda
Volume da oferta: R$:1,82 bi

Locaweb, tecnologia
Volume da oferta: R$ 1,33 bi

Moura Dubeux, construção
Volume da oferta: R$ 1,25 bi

Mitre Realty, construção
Volume da oferta: R$ 1,18 bi

Lavvi, construção
Volume da oferta: R$ 1,16 bi

Ambipar, gestão de resíduos
Volume da oferta: R$ 1,08 bi

Pague Menos, varejo
Volume da oferta: R$ 0,86 bi

D1000, varejo
Volume da oferta: R$ 0,46 bi

Allpark, estacionamentos
Volume da oferta: R$ 0,35 bi

Priner, indústria
Volume da oferta: R$ 0,20 bi

Fonte: Diário do Nordeste