Você Colunista - Coluna do dia 19/06/2026



BETS: O crescimento das apostas pode estar enfraquecendo a econimia real?

O mercado de apostas eletrônicas continua avançando em ritmo acelerado no Brasil.

Nos últimos anos, as chamadas “bets” deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento para se transformar em um fenômeno econômico de grandes proporções. O volume de recursos movimentados pelo setor cresce continuamente, impulsionado pela popularização das plataformas digitais, pela forte presença da publicidade esportiva e pela facilidade de acesso por meio dos smartphones.

Contudo, por trás dos números impressionantes de faturamento, surge uma preocupação que merece reflexão: qual é o impacto das apostas sobre a economia real?

O dinheiro está mudando de destino.

Pesquisas recentes indicam que uma parcela crescente da renda das famílias brasileiras está sendo direcionada para apostas online.

Em muitos casos, recursos que tradicionalmente seriam destinados ao consumo de bens e serviços, à formação de poupança ou ao pagamento de despesas essenciais passam a alimentar plataformas de apostas.

O problema não está apenas no gasto individual.

Quando milhões de pessoas alteram simultaneamente seus padrões de consumo, os efeitos se espalham por toda a economia.

Menos consumo significa menor atividade econômica em diversos setores produtivos, menor circulação de riqueza e menor geração de empregos.

O reflexo sobre o comércio e os serviços

O comércio varejista, os serviços e até mesmo pequenas empresas podem sentir os reflexos desse fenômeno.

Recursos que antes eram destinados à compra de alimentos, vestuário, eletrodomésticos, educação, lazer ou investimentos produtivos passam a ser canalizados para atividades que, em muitos casos, não geram a mesma capacidade de multiplicação econômica.

A consequência é uma possível redução do dinamismo da economia local.

Enquanto um gasto no comércio tende a gerar emprego, renda, recolhimento de tributos e movimentação da cadeia produtiva, o valor destinado às apostas nem sempre produz o mesmo efeito econômico.

O impacto tributário preocupa.

Existe ainda uma questão pouco debatida.

Embora as empresas de apostas estejam sujeitas à tributação e contribuam para a arrecadação pública, a redução do consumo em setores tradicionais pode produzir efeitos negativos sobre a receita tributária de estados e municípios.

A diminuição das vendas no comércio e da contratação de serviços pode reduzir a arrecadação de tributos incidentes sobre o consumo, especialmente em um cenário de expansão contínua das apostas.

Em outras palavras, parte da arrecadação obtida com a tributação das bets pode ser neutralizada pela perda de arrecadação decorrente da retração de outros segmentos da economia.

Esse é um tema que merece acompanhamento pelos governos e pelos formuladores de políticas públicas.

Endividamento e vulnerabilidade social

Outro aspecto preocupante é o crescimento do endividamento associado às apostas.

Estudos recentes apontam aumento do comprometimento da renda familiar com jogos online, além da utilização de recursos originalmente destinados a despesas essenciais.

Quando o orçamento doméstico é pressionado, os efeitos ultrapassam a esfera individual.

O aumento da inadimplência afeta o sistema financeiro, reduz a capacidade de consumo das famílias e amplia a vulnerabilidade econômica.

O desafio do equilíbrio

Não se trata de defender a proibição das apostas.

A regulamentação do setor representa um avanço importante em termos de controle, transparência e arrecadação.

Entretanto, é fundamental que o debate não fique restrito ao potencial arrecadatório.

É preciso avaliar os impactos econômicos, sociais e fiscais decorrentes da migração crescente de recursos da economia produtiva para atividades de apostas.

A questão central é simples:

O crescimento das bets está gerando riqueza nova para a economia ou apenas redistribuindo recursos que antes circulavam em setores produtivos?

Conclusão:

O avanço das apostas eletrônicas é uma realidade irreversível.

Contudo, seus efeitos sobre o consumo das famílias, a atividade econômica e a arrecadação tributária ainda precisam ser analisados com maior profundidade.

Se uma parcela crescente da renda nacional passar a ser direcionada para apostas em detrimento do consumo produtivo, o país poderá enfrentar reflexos relevantes na geração de empregos, no crescimento econômico e até mesmo na arrecadação tributária.

O desafio será encontrar um ponto de equilíbrio entre liberdade econômica, proteção do consumidor e preservação da capacidade produtiva da economia brasileira.

Artigo produzido por Gilson Aragão

Antônio Gilson Aragão de Carvalho é graduado em Direito, com pós-graduação em Direito Tributário e Gestão Pública, doutor em Ciências Jurídicas e Sociais, além de especialização em Direito Tributário pelo IBET e atualmente professor nessa mesma instituição; Autor e colaborador de renomadas obras jurídicas; Fez carreira na Secretaria da Fazenda do Estado do Ceará; Professor Universitário; Vice-presidente do Instituto Cearense de Estudos Tributários;

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