Fim da escala 6x1 provoca debate sobre jornada, custos e produtividade
Data: 27/10/2026
O fim da escala 6x1 vem colocando empresários e trabalhadores em lados opostos no debate sobre as mudanças na jornada de trabalho. Uma pesquisa divulgada na segunda-feira (19) apontou que 66,2% dos eleitores aprovam o fim desse modelo, enquanto 24,4% desaprovam a medida. O DIA conversou com representantes dos setores empresarial e trabalhista, além de especialistas, para entender os possíveis impactos da mudança na rotina dos trabalhadores, nos custos das empresas e na economia.
Perguntados sobre o fim da escala 6x1, outros 7,4% não souberam responder ou não responderam. Os dados são da Pesquisa Nexus, que ouviu 2.002 eleitores por telefone entre os dias 16 e 18, tem margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no TSE sob o número BR-04499/2026.
A medida, promulgada em 16 de outubro pelo Congresso Nacional, acaba com a escala de seis dias de trabalho para um de descanso (6x1) e garante dois dias de repouso semanal remunerado. Rogeana França, advogada trabalhista com pós-graduação em Direito Trabalhista pela Escola Brasileira de Direito, explica que a jornada máxima de trabalho será reduzida de 44 para 40 horas semanais, sem alteração no salário.
Rogeana França, no entanto, diz que é "importante diferenciar jornada de trabalho, carga horária semanal e escala de descanso".
"A Emenda Constitucional 141/2026 promove duas mudanças simultâneas: reduz o limite semanal para 42 horas na primeira etapa e para 40 horas na segunda, além de garantir dois dias de descanso semanal remunerado", informa a especialista.
"Isso não significa, necessariamente, que as folgas serão sempre aos sábados e domingos, pois atividades contínuas poderão exigir revezamentos, respeitados os limites constitucionais e as condições de negociação coletiva", esclarece.
O economista e contador especializado em finanças Gilberto Braga pontua que pequenos e médios negócios terão mais dificuldade para se adaptar às mudanças:
"Os pequenos e médios negócios têm uma dificuldade maior para se adaptar, justamente pelo seu tamanho. Isso ocorre devido à falta de margem, de acumulação de resultados e de recursos, de capital de giro. Então, em um primeiro momento, eles tendem a ter um aumento de custos", explica.
"Uma padaria, por exemplo, que precisa atender os clientes todos os dias e tem uma redução nessa jornada de trabalho, terá que contratar mais pessoas para suprir essa carência e necessidade. Um condomínio, onde as pessoas residem, por exemplo, que já tem uma escala predefinida, terá que contratar mais funcionários para fazer o serviço que deixará de ser feito. Isso tudo traz um aumento de custo para os pequenos e médios negócios", aponta.
O advogado especialista em Direito Administrativo, Internacional e Constitucional Artur Ratc informa que a norma se aplica "imediatamente aos contratos vigentes de trabalho".
"Na prática, isso dispensa a novação contratual para a maioria dos empregados, bastando revisar escalas, regulamentos e acordos coletivos que prevejam jornadas superiores aos novos tetos. É necessário, porém, observar uma exceção: os terceirizados da administração pública, cuja redução depende de termo aditivo, com prazo de um ano e aplicação automática caso não haja acordo", alerta.
Procurados pela reportagem, o Clube de Diretores Lojistas do Rio de Janeiro (CDLRio) e o Sindicato dos Lojistas do Comércio do Município do Rio de Janeiro (SindilojasRio) afirmaram que a mudança "impõe um desafio de adequação de tempo recorde para o mercado".
"O impacto financeiro e operacional recairá com maior severidade sobre as pequenas e médias empresas, especialmente por coincidir com o ápice das vendas de fim de ano — o período natalino —, elevando subitamente os custos com contratações e reorganização de turnos", ressaltam as entidades em nota.
"Embora a ampliação do descanso seja uma pauta socialmente relevante, ela precisa ser equalizada com a realidade da produtividade do trabalhador brasileiro. O ônus dessa transição estrutural não pode ser suportado exclusivamente pelo empresariado — exige apoio, incentivos e participação do Governo, ao lado de um esforço conjunto e maduro de negociação entre categorias profissionais e patronais", concluem.
O Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio) também se posicionou sobre a mudança.
"O compromisso do SindRio é apoiar o setor nesse processo, promovendo o compartilhamento de boas práticas e experiências de empresas que já adotam diferentes escalas e buscam ganhos de produtividade. Também reforçamos a importância de considerar as particularidades de cada operação e valorizar as convenções coletivas e os acordos com os sindicatos laborais, instrumentos essenciais para a construção de soluções equilibradas, adequadas à realidade de cada empresa e região", informa a entidade.
"Paralelamente, seguiremos contribuindo para ampliar o debate sobre alternativas de contratação e organização do trabalho, como o modelo de trabalho por hora. O objetivo é colaborar para a construção de soluções que ofereçam flexibilidade às operações, respeitem as relações de trabalho e permitam que o setor continue gerando empregos, investindo e crescendo."
O fim da escala também preocupa o setor de hotelaria. O presidente do Sindicato Patronal dos Meios de Hospedagem do Município do Rio de Janeiro (Sindhotéis-RJ), Alfredo Lopes, manifesta preocupação com a medida.
"Qualquer redução de jornada sem a devida diminuição de salário é impraticável em qualquer área e mais impactante ainda em atividades contínuas, que funcionam 24 horas. O consumidor não suporta o aumento de custo, e as empresas não têm como repassar esse incremento para o consumidor", diz Alfredo Lopes.
"Para garantir o funcionamento contínuo, os hotéis precisarão ampliar seus quadros de funcionários e arcar com custos adicionais. Em um setor intensivo de mão de obra, essa mudança na jornada de trabalho é desafiadora."
Comerciários veem 'vitória histórica'
"O fim da escala 6x1 representa uma vitória histórica que vai beneficiar mais de 350 mil comerciários apenas no município do Rio. São anos de luta pelo respeito aos trabalhadores. Anos de luta para que tenham duas folgas na semana e possam desfrutar de descanso, mais tempo de lazer com a família", explica.
O presidente do sindicato rebate a tese de prejuízo econômico generalizado.
"Trabalhadores que descansam mais rendem mais. Além disso, para manter o atendimento ao público em funcionamento contínuo ao longo da semana no comércio do Rio, o fim da escala 6x1 exigirá uma reorganização de equipes por parte das empresas, o que tende a estimular a abertura de novas vagas de emprego para preencher os turnos gerados pelas novas folgas", conclui.
'Adotamos o 4x3 e passamos a vender mais'
Ao jornal O DIA, a empresária defende que "não dá para ganhar dinheiro às custas da exaustão das outras pessoas" e observa que, com a nova escala, as vendas aumentaram.
"Nós notamos uma diferença enorme. A gente começou a vender mais. Tanto que o nosso faturamento no primeiro ano de escala 4x3 subiu 35%. Nesse mesmo ano, a gente não aumentou o cardápio, não mudou o número de lugares e ainda fechou 17 dias por causa de uma obra", garante Isabela Raposeiras.
"Nós não precisamos aumentar o quadro de funcionários. Primeiro, porque a 4x3 tem uma jornada diária um pouquinho mais longa, e isso facilita montar os turnos, montar o quebra-cabeça. Eu acho que, para o ramo de restaurantes e lojas de shopping, que têm horário muito longo, a 4x3 é melhor do que a 5x2", afirma.
Isabela Raposeiras explica que, na sua opinião, as empresas relutantes em adotar uma escala de trabalho melhor para os funcionários "precisam fazer o dever de casa".
"Esses empresários que estão indignados porque vão ter que contratar mais gente não querem primeiro entrar na própria operação e verificar onde estão sendo ineficientes, para melhorar os processos e, assim, conseguir implementar a escala sem contratar ninguém ou contratando, no máximo, uma ou duas pessoas, cujo custo será compensado pelas economias que terão", destaca.
"O empresário que está falando isso não está considerando duas coisas. Primeiro, a operação dele provavelmente está ineficiente, e ele vai ter que olhar para ela. Segundo, ela está ineficiente porque tem muita gente faltando. Gente faltando, gente rodando, saindo e entrando na empresa, rotatividade alta e absenteísmo alto fazem com que a operação seja menos eficiente também", alerta.
Fonte: O DIA
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